segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

W.M. Thackeray. O livro dos esnobes: escrito por um deles

"Todo mundo da classe média que caminha por essa vida nutrindo uma simpatia pelos companheiros da jornada – em todo caso, todo homem que esteve acotovelando-se pelo mundo durante três ou quatro lustros – não deve pôr fim às reflexões melancólicas sobre o destino dessas vítimas a quem a sociedade, isto é, o esnobismo, está imolando a cada dia. Com amor, simplicidade e gentileza natural, o esnobismo está em perpétua guerra. As pessoas não ousam ser felizes por medo dos esnobes. As pessoas não ousam amar por medo dos esnobes. As pessoas se consomem de desgosto, solitárias, sob a tirania dos esnobes. Honestos corações amáveis murcham e morrem. Rapazes bravos e generosos, florescendo no início da juventude, incham-se no velho celibato empolado, explodem e sucumbem. Moças delicadas definham, entrando em encolhida decadência, e perecem solitárias; moças de quem o esnobismo cortou o direito comum à felicidade e ao afeto com que a natureza nos dotou. Meu coração fica triste quando vejo o trabalho do desajeitado tirano. Quando vejo isso me incho de raiva e ruborizo de fúria contra o esnobe. Submeta-se, ó, estúpido fanfarrão, e renuncie a seu espírito brutal! E eu me armo com espada e lança e, despedindo-me de minha família, avanço para combater o horrendo ogro e gigante, aquele déspota brutal do Castelo Esnobe, que mantém tantos corações sensíveis em tortura e servidão."